Há uma gota de sangue em cada poema
Este é o título do primeiro livro de Mário de Andrade, publicado em 1917.
Sempre achei este título sonoro, cheio de significados e até o dia de hoje ele me diz muito, achar que em cada coisa que escrevemos lá está uma camada de dor, um pinguinho que seja de um esforço de superação, talvez. Cai bem agora.
Há tempos procuro este livro em livrarias e nada. Até que no volume Obra imatura, das obras completas de Mário de Andrade publicadas pela editora Itatiaia (o qual citei no post anterior um ensaio) finalmente encontro o enigma. E que surpresa
Saber que se trata de um pequeno livro com apenas onze poemas (mais o prefácio). A nota biográfica de Mário presente na edição não é muito animadora quando diz que Há uma gota se trata de “pequena obra inexpressiva, inspirada na Primeira Guerra Mundial, válida contudo pela intenção pacifista de que estava imbuída.”
Que exercício de imaginação, escrever com tanta paixão e afinco sobre uma guerra que não foi vivida! Reproduzo um dos poemas “Refrão de obús” e no próximo post trarei uma versão para o português de um outro poema com temática semelhante - uma visão "animadora", do belo da guerra, quem sabe numa estrutura mais "modernista" -, mas por alguém que a viu muito de perto.
Refrão de obús
Partir pelo ar, atravessar girando
o ambiente perfumado do verão
Sentir o vento novo e brando;
no ímpeto da carreira,
perfumar-se e abrandar-se á viração!...
Partir, com o íntimo esfôrço, velozmente:
ver na campina a última leira,
rasgada pelo último arado,
aberta a boca mansa, esperar a semente!...
Partir, ouvindo os passarinhos,
que despertara a cotovia,
musicar, lado a lado,
o êxtase florescido dos caminhos!...
O'! Como é bom partir, subindo!...
Sob a palpitação da madrugada fria,
á ovação triunfal do dia infante e lindo
ó! Como é bom partir subindo!...
Partir, alimentando um desejo de escol;
partir, subindo pelo espaço para o Sol!...
Mas na suprema glória de subir,
sentir
que as forças vão faltar:
e retornar de novo para a Terra;
e servir de instrumento numa guerra;
e rebentar
e assassinar!...
Escrito por Elisa Andrade Buzzo às 23h35
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