A escrava que não é Isaura (por Mário de Andrade)

Discursos sobre algumas tendências da poesia modernista

 

Começo por uma história. Quasi parábola. Gosto de falar por parábolas como Cristo... Uma diferença essencial que desejo estabelecer desde o princípio: Cristo dizia: “Sou a Verdade”. E tinha razão. Digo sempre: “Sou a minha verdade”. E tenho razão. A Verdade de Cristo é imutável e divina. A minha é humana, estética e transitória. Por isso mesmo jamais procurei fazer proselitismo. È mentira dizer-se que existe em S. Paulo um igrejó literário em que pontifico. O que existe é um grupo de amigos, independentes, cada qual com suas idéias próprias e ciosos de suas tendências naturais. Livre a cada um de seguir a estrada que escolher. Muitas vezes os caminhos coincidem...

 

(...)

 

O assunto-poético é a conclusão mais anti-psicológica que existe. A impulsão lírica é livre, independe de nós, independe da nossa inteligência. Pode nascer de uma réstia de cebolas como de um amor perdido.  (...) Papini considera mesmo como verdadeiro criador aquele que independe do silêncio, da boa almofada e larga secretária para escrever seu poema genial. Mas que não se perca o assunto: a inspiração surge provocada por um crespúsculo como por uma chaminé matarazziana, pelo corpo divino de uma Nize, como pelo divino corpo de uma Cadillac.

 

(...)

 

O amor existe. Mas anda de automóvel. Não há mais lagos para os Lamartinos do século 20!... E o poeta se recorda da última vez que viu a pequena, não mais junto da água doce, mas na disputa da taça entre o Palestra e o Paulistano.

 

Mário de Andrade.

Texto de 1925 em Obra imatura (Itatiaia, 1980).



Escrito por Elisa Andrade Buzzo às 14h40
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meu aviãozinho monomotor

 

                                    Para a Latifa

 

quando está deitado

digo que está pousado

 

depois decola nos meus braços

sardinha é sua gasolina

 

meu aviãozinho monomotor

                                               - tão leve

corpinho compacto que,

se desaba sobre as casas

 

será apenas nuvem de pelos

e garras fincadas



Escrito por Elisa Andrade Buzzo às 23h20
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Deixa andar

 

Nô Stopa/Marcelo Bucoff

 

meu coração se perdeu no labirinto do querer

ele não quer querer assim

mas meu coração tem vontade própria e não vê

me deixa mandar e eu deixo ir

meu coração percebeu nas armadilhas do viver

que não quer cair assim

num coração que não vem

me deixa andar

e eu deixo ir

me deixa andar

e eu deixo ir

assim...

 

 

(Novo prático coração, 2008)



Escrito por Elisa Andrade Buzzo às 00h00
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